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Opinião

A periferia tem muitos lados

Maria Manuela Rato

Há uns anos atrás li um texto de um amigo que hoje me remeteu para o tema - Periferias.

Este, falava de um homem que se encontrava à porta do Metro, numa manhã fria de Inverno onde tocou, quase durante uma hora ininterruptamente várias peças de Bach. Era hora de ponta! Passaram por ele centenas de pessoas… poucos repararam e pararam… todos estavam cheios de pressa para os seus trabalhos… não havia moedas, não havia aplausos.
Este Senhor era um violinista famoso dos mais talentosos do mundo, tinha tocado algumas das peças mais elaboradas; e o seu violino valia alguns milhões de dólares. Dias antes de tocar aqui, este violinista tinha esgotado um teatro numa cidade nos Estados Unidos, onde cada lugar custava em média 100 dólares.

Como esta historia me deixou a pensar, onde está o centro? Onde nos centramos?
Tudo nos chega de forma tão natural e simples mas, no quotidiano da nossa Vida, na pressa, nos afazeres do trabalho, nas rotinas que temos, deixamos o Centro de tudo - DEUS e, passamos a viver nos arredores, nos subúrbios do essencial, na periferia; rodamos, rodamos até ficarmos tontos e não nos apercebemos da beleza de tantas coisas que nos chegam todos os dias, todas as horas, todos os minutos.
É tão fácil passar no lado contrário, ou do outro lado, passar à frente, não ouvir, ou não ver… passamos a Vida tão atarefados, com um ar tão preocupado, tão tristes adotamos comportamentos destruidores do próximo e de outras criaturas; sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguimos aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, são atribuídos a quantos não têm Deus como ponto de referência, nem esperança no futuro.

Estejamos voltados continuamente para a Páscoa de Jesus, para o horizonte da Ressurreição! Pedimos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de conversão;
Não deixemos que nos passe em vão, este tempo favorável!

A periferia da geometria é O centro

Rui Fernandes

(…) e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo (…)
Para um arquiteto a geometria euclidiana é a primeira linguagem e as medidas o vocabulário mais básico. Nestas primeiras noites de Primavera gosto de olhar o firmamento e recordar o absurdo das distâncias que compõe o Universo: olhar para o cintilar das estrelas e recordar que a luz de muitas delas é apenas a viagem dos seus feixes óticos já que a fonte luminosa há muito se extinguiu, redimensiona a nossa escala (para mim ainda abstrata) e traz uma noção mais exata do quão periféricos somos na vastidão universal.
Aqui chegados, esta tomada de consciência pode ter muitas direções. Creio que a mais urgente é interiorizar a escassez que é esta bola azul enquanto suporte para a vida humana, e como esse facto reclama uma reconversão do nosso entendimento de humanidade na história, como tão bem nota o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si; e que foi o tema da primeira sessão do programa Curtas com Conversa que decorre no Seminário, porém gostava nestas linhas de fazer um exercício mais básico de mapeamento da geografia de Cristo…fazer a volta ao contrário!
A liturgia deste tempo da quaresma apresenta-nos Cristo na sua derradeira itinerância antes de se dirigir a Jerusalém, para o seu ato inicial (final). São um conjunto de paisagens “periféricas”: bordas de um lago, deserto, estradas e caminhos, cenas a meias entre este mundo e o outro, tentações, imperfeições e provocações...há de tudo! Tudo menos a cidade canónica, das ruas, praças, templos e tribunais, essa está reservada para a explosão final. Se conseguirmos mergulhar a fundo nesta viagem chega a dar tonturas, Cristo está feito um cometa em aceleração imparável, orbita o mundo em elevada vertigem e aponta já ao centro do centro: em três dias destruirá e refará o Templo.
O nascimento do Cristianismo é uma viagem das periferias para o centro, é o desenho e movimento de Cristo que o obriga. É uma emergência em deixar a margem, é a consciência que não basta ficar a habitar uma tenda na montanha, ou apenas eternizar a peregrinação nos caminhos secundários: o encontro com Cristo tem uma direção central, Ele projeta-nos na história e convoca-nos a um roteiro preciso, no relato de Lucas: e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.
O programa do Cristianismo é uma irradiação: a partir de Jerusalém desenham-se anéis concêntricos da Judeia, Samaria a Coimbra e até aos confins do mundo…é esta novidade que inverte a geometria das nossas noites de contemplação do firmamento. A partir do momento que Cristo irrompe na vida de cada um, também nós somos chamados a fazer a viagem que altera todos os sentidos: o amor de Cristo e a sua promessa do Reino faz de cada um o centro da história. A vastidão do universo é só uma imensa periferia…
É aqui que ganha todo o sentido o apelo do Papa Francisco: a imagem de uma Igreja em saída, que se procura e projeta nas periferias existenciais do homem, é novamente a convocatória ao projeto seminal de Cristo, é um grito para que cada um de nós se conforme com a imagem da peregrinação d´Ele até Jerusalém e que o façamos com o itinerário completo: visitando os desertos, clamando por entre as multidões, pisando todos os caminhos e bordeando todas as margens: é aqui que está o que falta ao centro…as periferias.

Comunicar com as periferias: opção estratégica ou missão evangelizadora?

Sílvia Monteiro

Somos Filhos de Deus, criados por Ele à sua imagem e semelhança.
Como sabemos isto? Sabemo-lo porque o nosso Deus não é apenas um Deus Criador, É um Deus comunicador, que acompanha o ser humano desde a conceção até à vida eterna.
Quem melhor para comunicar Deus e a Sua mensagem, que o próprio Deus feito homem e nosso irmão, um Deus que se pode ver e ouvir, seguir ou ignorar, com quem se pode comunicar e de quem se pode receber a Palavra, de forma simples, clara e verdadeira. Podemos dizer que Deus, ao fazer-se Homem, comunica, comunica-se.
A quem é dirigida a Palavra de Deus, a sua comunicação? A todos? Certamente que sim. Mas a quem é particularmente dirigida? Esta resposta é claramente dada por Deus quando escolhe fazer-se um de nós na pessoa de Jesus.
Em vez de aparecer aos homens em Roma, centro do mundo de então, nasce numa manjedoura numa pequena localidade nos confins do mundo. Ao invés de tomar rapidamente o poder, associando-se às elites, tem inicialmente uma existência pacata numa família humilde e, quando inicia a vida pública, escolhe como companheiros pessoas simples ou olhadas de lado pela sociedade: pescadores, cobradores de impostos, agitadores políticos... Não foca a sua atenção nas pessoas e estruturas centrais, dirigindo-se antes às pessoas menos valorizadas naquele tempo: mulheres, crianças, pobres, doentes, portadores de deficiência...
Podemos então concluir que as periferias estão no centro do Evangelho, o que é periférico para a humanidade, é central para Deus. Deus quer-nos no centro e quer ser o nosso centro; somos nós que frequentemente O relegamos para a periferia e, consequentemente, construímos sociedades em que os mais fracos, os pobres, os estrangeiros, os doentes, os proscritos são atirados para a periferia.
Deus, porém, ama as periferias e impele-nos a comunicar com todas as periferias, a aprender com elas a amar a Deus, a praticar o Amor e a Justiça.
Se eu sou cristão, amo as periferias. Se eu sou Igreja, tenho de comunicar a Boa Nova de Deus às periferias, torná-las o centro da minha vida, da minha comunidade, do meu projeto de santidade. Se Jesus Cristo veio para as periferias, amou as periferias, morreu pelas periferias, também nós temos de lhes dedicar uma atenção especial, pois nelas está o futuro da Igreja e da Humanidade. Comunicar com as periferias é imitar Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida.
Como comunicar com as periferias? Queremos converter as periferias ou converter-nos às periferias?
A primeira opção implica que eu sou sábio e as periferias ignorantes e se eu acredito nisto, então jamais compreenderei as periferias. A segunda opção implica ter a humildade de ouvir as periferias, entender os seus problemas e anseios, identificar os seus atos diários de heroísmo e, dessa forma, perceber que elas estão muitas vezes bem mais perto de Deus do que nós e que, se deixarmos, poderão salvar-nos de nós próprios, da nossa superioridade e arrogância e mostrar-nos o verdadeiro Deus, menino na manjedoura em Belém, cordeiro imolado no Calvário, Salvador eterno relevado em Emaús, em Coimbra e em todo o universo.
Não tenhamos dúvidas, comunicar com as periferias, de cada um de nós, da nossa comunidade, do nosso país, da Igreja e do Mundo tem uma tripla dimensão: ir ao encontro do outro, ir ao encontro de nós próprios, ir ao encontro de Deus, da Sua palavra e da Sua salvação.
Por tudo isto, comunicar com as periferias não é uma opção estratégica ou politicamente correta é, isso sim, a principal vocação da Igreja e de cada cristão e o único caminho que conduz a Deus, uno e trino, presente e futuro!