Testemunhos

Além Fronteiras

Quando a missa do Seminário chega até ao Rio de janeiro

Juliane Rocio Neves

Nem sempre a alegria está facilmente ao alcance das mãos. Mas, há alguns meses ela se materializou para mim, através de um toque no link, que me transporta digital e espiritualmente do Rio de Janeiro, para a celebração da Eucaristia aos domingos no Seminário Maior de Coimbra.

Ao som das mais lindas vozes em conjunto com um piano divino, e pelo embalo gostoso do chiado típico do português de Portugal, sempre guiado pelas sábias e amorosas palavras do Padre Nuno, recebo, semanalmente, um reforço para a minha fé e um alento nesses tempos tão sombrios.

A pandemia e o tratamento de um inusitado câncer de mama, fizeram desse ano de 2020, o mais recluso de todos para mim. E eu , que, infelizmente, nunca estive fisicamente em Portugal, passei a estar lá, espiritualmente, a cada domingo, me renovando na fé , na alegria e na tentativa de fazer brotar o que de melhor há em mim, para viver verdadeiramente o Evangelho no meu dia a dia, pois ele nos ensina a estar no mundo à maneira de Jesus.

“Sim, essa palavra está ao seu alcance, está na sua boca e no seu coração, para que você a coloque em prática. “(Dt30, 14)

Só posso acreditar que isso é graça divina, pois Deus é cuidadoso e providente. Foi Ele quem permitiu que eu me conectasse semanalmente com Coimbra, mesmo que estando em outro continente, fazendo-me a cada domingo mais confiante na caridade e no amor dos homens e mais próxima ainda de Deus. As palavras de Padre Nuno caem em terreno fértil no meu coração e só têm florescido! Como disse Papa Francisco: “A beleza das escolhas depende do amor.” E é com amor multiplicado no coração, que espero que se reflita nas minhas ações, que termino a cada domingo o compartilhamento da missa do Seminário Maior de Coimbra.

A vida aumenta quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade, dessa forma, a cada domingo ganho mais e mais VIDA!

E VIDA É AMOR!

“Agora, portanto, permanecem essas três coisas: a fé, a esperança, e o amor. A maior delas, porém, é o AMOR” (1Cor 13, 13).

“Dobrar todas as meias da Vida”

Mafalda Avelar

Era Domingo. Estávamos no quarto mês deste atípico ano de 2020. Não podíamos sair de casa. O vírus já tinha invadido o planeta, e eu, no meu pequeno mundo, com a gratidão, sempre presente, de reconhecer que tenho a sorte de ter os melhores filhos do mundo, uma casa, uma família, amigos, comida na mesa, emprego, saúde e sonhos, estava a dobrar as meias dos meus quatro rapazes, no quarto, entre quatro paredes.

Sentindo-me ‘meia quadrada’ sem ter o sagrado tempo (até ao momento) para ler jornais ou, sequer, alinhavar o almoço, bocejava com o cansaço típico de quem estava acordada desde das 6 da manhã na labuta, com compasso, múltiplas linhas, ‘imensas’ palavras e equações de limpezas. E entre um texto escrito, uma palavra finalmente encontrada, lá apareceu uma meia rota. Mais uma (nova) a precisar de remendo para juntar a todas aquelas isoladas cujo par ainda não tinha sido encontrado. As meias nunca têm par, não é? São, na verdade, as melhores amigas das tampas das taparueres, dificilmente encontradas. Nesta aritmética rotineira, juntaram- se, ali perdidos nas horas, os trabalhos de casa de matemática, ao domingo de manhã. Tantos deles, que logo aos primeiros minutos, teimam em não ter solução. Uma (saudável) dor de cabeça para muitas mães.

Sem analgésicos, e enquanto dobrava as meias, lá continuava a dar umas ‘dicas numéricas’ ‘aos miúdos’ sobre a resolução de um problema.

Problemas existem muitos. E o mais engraçado é que em matéria de números os Caminhos para chegar à solução são, e podem ser, bem distintos. Tal como na Vida. Escutei, um dia, que se aumentarmos o sorriso, diminuímos os problemas.

Sinto, diariamente, que - e tantas vezes - um simples gesto muda o ‘trilho do nosso dia’.

E foi exatamente isso que aconteceu. Do nada, e recordo me como se fosse hoje, apareceu me um WhatsApp de uma querida amiga, com um link de uma transmissão. Era uma Missa.

Carreguei no link, sem grande intenção, tenho que confessar, de assistir, e vejo que é uma eucaristia do Seminário de Coimbra. Fiquei (sou) curiosa. Deixei, literalmente, ‘rolar’. Eram 11 em ponto.

Uma das meias do equipamento do Benfica de um dos meus rapazes teimava em não aparecer. Voltei ao cesto da roupa para ver se tinha ficado por lá, caída. Não tinha. Levantei a cabeça (o que sempre faço com a mesma fé com que me ergo quando preciso) e eis que fui surpreendida por um cântico. ‘Tão bonito’, exclamei. Fiquei a cantar!

E o que é certo é que canto, até hoje, com o entusiasmo do grande coro e das palavras do Sacerdote, que ainda não conheço pessoalmente, mas que posso assegurar que resolve muitos problemas com as suas sábias palavras, que me chegam por um aparelho móvel, através de um WhatsApp de uma amiga querida, que creio que nunca soube como me ajudou a dobrar todas as meias da Vida. As novas, as que já têm borboto, as que precisam de um ponto e até as que estão para ficar.

Ao coro, à Amiga, ao sábio sacerdote (Padre Nuno) e sobretudo a Deus agradeço por tornarem o início da minha semana e dos meus filhos tão mais animado, realista, futurista e acima de tudo Humanamente grato.

Os problemas vão continuar. Sobretudo a serem resolvidos. A Fé, essa, cresceu através de Vós.

Eu e a Fé Somos como aquelas amigas, que às vezes até se zangam mas que estão sempre lá. Como sempre digo (à Mar, amiga do Oceano) com um q.b de brincadeira e uma base de grande verdade: seremos velhinhas, com bengalas, mas ainda assim andaremos de mãos dadas por esse mundo fora. Sempre aos pares e sempre alimentadas por este sentimento poderosamente são, que viaja de forma invisível (até) por mega bites. É invencível. Não conhece fronteiras.

Quem tem Fé nunca está só. O outro par da meia está sempre lá. Ao quadrado.